O que aconteceu em São Paulo durante o show “Xuxa, O Último Voo da Nave” foi muito mais do que uma apresentação musical. Foi um encontro de gerações, uma viagem emocional e a prova de que Xuxa continua sendo uma das figuras mais corajosas e importantes da cultura pop brasileira.
A estreia aconteceu no Nubank Parque, diante de um público gigantesco. Eram dezenas de milhares de pessoas reunidas para rever uma artista que marcou a infância de milhões de brasileiros — e que, décadas depois, ainda consegue fazer adultos cantarem “Ilariê”, “Doce Mel”, “Lua de Cristal” e “Beijinho, Beijinho” como se o tempo não tivesse passado.
Mas passou. E talvez seja justamente isso que torne tudo ainda mais forte.
Uma viagem pela história da Xuxa
Xuxa não subiu ao palco tentando fingir que ainda estava nos anos 1980. O espetáculo fez algo muito mais interessante: olhou para a própria história, revisitou suas eras, suas músicas, seus personagens e toda a estética que marcou a infância de tanta gente.

Só que essa viagem ao passado veio acompanhada de uma produção grandiosa. O palco em 360 graus, os telões, os efeitos visuais, os bailarinos e a nave sobrevoando o estádio ajudaram a transformar a memória em uma experiência ao vivo.
A nave, aliás, representa muito mais do que um elemento cenográfico.

Para quem cresceu assistindo ao Xou da Xuxa, ela era uma espécie de portal. Era o momento em que a fantasia entrava na sala de casa. Por isso, quando aparece novamente diante de um estádio lotado, não é apenas Xuxa chegando ao palco. É uma geração inteira lembrando de quem era quando ainda era criança.

O show foi estruturado como uma grande viagem pela carreira da apresentadora e cantora. Os atos passaram pelo Xou da Xuxa, Xuxa Park, Planeta Xuxa, pelos filmes, especiais e também por fases mais recentes de sua trajetória na televisão.

Não foi uma nostalgia preguiçosa, construída apenas com sucessos antigos. Havia narrativa, conceito, referências visuais e uma clara intenção de contar essa história.
Figurinos, referências e identidade visual
Os figurinos também merecem destaque. Xuxa apareceu com referências futuristas, capas, brilhos, elementos espelhados, plumas, botas, óculos enormes e uma combinação de cores que passeou pelo dourado, prata e preto.

Em determinado momento, houve até uma referência à She-Ra, dialogando diretamente com o imaginário de uma geração que cresceu cercada por heroínas, personagens fantásticos e histórias de transformação.
Muitos looks ainda mudavam durante as performances, o que mostra o cuidado com a linguagem visual do espetáculo. Tudo parecia pensado para reforçar a ideia de que aquela não era apenas uma apresentação, mas uma celebração de diferentes fases da carreira de Xuxa.
A polêmica do figurino
Como quase sempre acontece quando uma mulher ocupa um espaço com liberdade, confiança e presença, a internet encontrou um motivo para transformar parte do espetáculo em polêmica.

Um dos figurinos usados por Xuxa, um body mais cavado, provocou críticas. Algumas pessoas disseram que a roupa não seria apropriada para a idade dela, que ela teria “passado do limite” ou que o visual não combinaria com um show associado ao público infantil.
Mas, sinceramente, Xuxa tem 63 anos. E daí?
Desde quando uma mulher precisa pedir autorização para vestir algo que a faça se sentir bonita, poderosa ou confortável? O que me incomoda nessa discussão é que ela quase nunca é realmente sobre a roupa. No fundo, é sobre o envelhecimento feminino.
É a sociedade tentando dizer a uma mulher:
“Agora você precisa se esconder. Agora deve ser discreta. Agora não pode mais ser sensual. Agora não pode mais ser dona do próprio corpo.”
É claro que ninguém é obrigado a gostar de um figurino. Gosto é gosto. Qualquer pessoa pode olhar e dizer que não usaria aquela roupa ou que não se identifica com o visual. Isso é uma opinião legítima.
O problema começa quando a idade de uma mulher é usada para desqualificar sua liberdade.

Se uma cantora de 25 anos usasse o mesmo body, provavelmente seria chamada de ousada, empoderada ou diva pop. Quando é Xuxa, muita gente se incomoda porque ela quebra a expectativa de que mulheres mais velhas devem se tornar invisíveis.
E Xuxa sempre foi uma mulher que provocou discussões. Desde o início da carreira, foi julgada pelas roupas, pelo comportamento, pelos programas, pelo jeito de falar e pelo tamanho do sucesso que alcançou.
A diferença é que hoje existem redes sociais, cortes de vídeos e uma necessidade quase permanente de transformar qualquer assunto em tribunal.
Xuxa, no entanto, respondeu à polêmica com humor. Ao brincar com a expressão “último voo da virilha”, ela mostrou inteligência, leveza e segurança. Não se colocou no papel de vítima e não permitiu que a discussão tirasse o foco daquilo que realmente importava: a celebração com o público.
As Paquitas no palco
Outro momento especial foi a reunião de 13 Paquitas de diferentes gerações.
Andréa Veiga, Ana Paula Guimarães, Roberta Cipriani, Priscilla Couto, Cátia Paganote, Juliana Baroni, Bianca Rinaldi, entre outras, voltaram ao palco para representar fases distintas desse universo que marcou a televisão brasileira.

Elas cantaram “Pra Sempre Paquitas” e também participaram de momentos como “Sonho de Verão”. Para quem acompanhou aquela época, a presença delas teve um peso histórico enorme.
As Paquitas não eram apenas assistentes de palco. Elas faziam parte de um sonho coletivo. Eram personagens que o público conhecia pelo nome, pelos figurinos, pelas coreografias, pelas brincadeiras e por toda a magia que existia em torno dos programas de Xuxa.
Reunir essas mulheres, hoje adultas e com trajetórias próprias, no mesmo palco, foi quase como dizer:
“A nossa história não foi apagada pelo tempo.”
Nostalgia não é viver preso ao passado
Essa é, para mim, a grande força de “O Último Voo da Nave”.
O espetáculo não tenta reviver o passado exatamente como ele era. Ele reconhece que aquele passado deixou marcas profundas — e que essas marcas continuam vivas em quem cresceu com Xuxa.
A nostalgia, nesse caso, não é infantilização. É afeto, memória e identidade.
Xuxa sempre foi maior do que um programa de televisão. Ela virou linguagem, referência estética, trilha sonora de aniversários, fantasia de Carnaval e uma coleção de frases que quase todo mundo sabe completar.

Por isso, um show como esse mexe tanto com as pessoas. No público, havia adultos cantando, chorando, levando os filhos, as mães e as próprias lembranças. Era como voltar a ser criança por algumas horas.
E isso não tem preço.
Uma lenda que ainda escolhe como quer existir
A polêmica do figurino virou assunto, como era de se esperar. A internet funciona dessa maneira. Mas, perto do que o espetáculo representa, essa discussão é pequena.
A grande notícia é outra: uma mulher de 63 anos, com quatro décadas de carreira, subiu a um palco monumental, voou em uma nave diante de uma multidão, cantou músicas que atravessaram gerações, reuniu Paquitas, entregou produção, emoção e ainda mostrou que não permitirá que determinem como ela deve existir.
Isso é coragem.
Talvez o “último voo da nave” não seja exatamente uma despedida. Talvez seja uma celebração. A celebração de uma artista que entende que, para tocar as pessoas, é preciso ter memória — mas também liberdade para continuar sendo quem se é.
E Xuxa, gostem ou não, continua sendo Xuxa.
Isso é muito poderoso.
A nave pode até estar fazendo um último voo. Mas tudo aquilo que ela representa continua viajando na memória de milhões de pessoas.
E é isso que transforma uma artista em lenda.

