EQUILIBRIVM II: Anitta olha para o Brasil e encontra uma nova força

Hoje eu quero falar sobre um disco que, para mim, vai muito além de mais um lançamento da Anitta.

EQUILIBRIVM II
 me parece uma declaração de identidade. E não estou falando daquela identidade pronta, calculada para caber em uma playlist, render um refrão de quinze segundos ou funcionar em uma trend. Estou falando de uma identidade brasileira, plural, contraditória, urbana, espiritual, sensual e profundamente musical.

Anitta sempre foi uma artista em movimento. Ela atravessou o funk, o pop internacional, o reggaeton, a música eletrônica e construiu uma carreira que poucos artistas brasileiros conseguiram construir em escala global. Só que, neste álbum, sinto que ela faz um caminho diferente.

EQUILIBRIVM II, álbum novo da Anitta

Em vez de olhar apenas para fora, ela volta para dentro.

Volta para referências que estão no Brasil que pulsa no tambor, na palavra, no terreiro, no samba, no forró, no reggae, na bossa e, claro, no funk. É um disco que parece interessado em lembrar que a música brasileira não precisa se explicar para ser contemporânea. Ela já é.

Brasilidade como essência, não como enfeite

O que mais me chama atenção em EQUILIBRIVM II é que a brasilidade não aparece como decoração. Não é aquela estética colocada em cima de uma produção pop apenas para dar cor ou criar um conceito visual.

Ela está na estrutura das músicas, na escolha dos instrumentos, nas vozes convidadas, nas referências espirituais e na maneira como as faixas se movimentam.

Anitta faz homenagem a Carmen Miranda

Logo na abertura, em “Você Já Sabe”, existe um encontro muito simbólico entre os tambores ligados ao candomblé e o tamborzão do funk. Para mim, essa combinação já explica muito sobre o álbum.

Anitta não trata esses dois universos como opostos. Ela entende que ambos têm corpo, chão, ancestralidade, comunidade e movimento. Ambos nascem de lugares onde a música não é apenas entretenimento. É linguagem, resistência e presença.

Entre o sagrado, a pista e o corpo

O disco inteiro trabalha uma ideia de equilíbrio. Entre o sagrado e o profano. Entre a contemplação e a pista. Entre a artista pop que domina a cultura de massa e a Larissa que parece querer mostrar uma parte mais íntima da sua visão de mundo.

Esse talvez seja um dos lados mais interessantes do projeto.

Em “Divino Sexual”, por exemplo, o próprio título já carrega uma provocação importante. Anitta sempre falou de desejo, liberdade e poder, mas aqui essa conversa parece ganhar outra camada. O corpo não aparece apenas como provocação. Ele aparece como território de cura, autonomia, prazer e presença.

Tudo vai além da performance – Anitta em EQUILIBRIVM II

O sensual também pode ser sagrado. E poucas artistas populares conseguem falar disso com tanta naturalidade quanto ela.

O Nordeste não como referência, mas como pulsação

Em “Não Me Cutuca”, com Alceu Valença, existe uma mistura que funciona muito bem. A produção pode flertar com elementos eletrônicos e graves mais sintéticos, mas o balanço carrega um espírito de xaxado.

É o Nordeste aparecendo não como uma citação óbvia, mas como pulsação. Como linguagem musical.

Elementos do Nordeste e da Fé presente em EQUILIBRIVM II

E acho bonito quando um disco consegue fazer isso. Quando ele não precisa colocar uma placa dizendo de onde vem determinada influência. A música simplesmente carrega aquilo no ritmo, no jeito de cantar, na sanfona, no corpo e na atmosfera.

Um álbum feito de encontros

Outro ponto forte de EQUILIBRIVM II são as participações. Maria Bethânia, Mart’nália, Mestrinho, MC Tha, Alexandre Carlo, Brô MC’s, Katú Mirim, Kbrum, Grupo Ofá e Letícia Fialho não estão ali apenas para gerar manchete.

Mestrinho grava tem participação marcante em EQUILIBRIVM II, álbum novo da Anitta

Cada presença ajuda a construir um Brasil possível.

São gerações diferentes, memórias diferentes, territórios sonoros diferentes. E isso transforma o álbum em encontro. Não é apenas Anitta convidando artistas. É Anitta abrindo espaço para que diferentes vozes atravessem o mesmo projeto.

Maria Bethânia e Anitta em Ogum Me Rodeia

A presença de Maria Bethânia em “Ogum Me Rodeia”, por exemplo, tem um peso que vai além de uma colaboração especial. Bethânia carrega uma relação histórica com a palavra, com a fé, com a poesia e com a canção brasileira.

Quando ela entra em um álbum da Anitta que dialoga com espiritualidade e ancestralidade, parece existir uma troca de energia. Como se o disco dissesse que sabe de onde veio e, principalmente, com quem quer conversar.

Anitta não precisa mais provar nada

Hoje existe uma pressão para que os discos sejam cada vez mais imediatos. Um gênero, uma fórmula, um refrão instantâneo, uma música pensada para prender atenção nos primeiros segundos.

Anitta entende esse jogo muito bem. Talvez seja uma das artistas mais inteligentes da indústria quando o assunto é comunicação, imagem e estratégia. Mas, em EQUILIBRIVM II, ela parece interessada em algo diferente.

Performance de Anitta em EQUILIBRIVM II

Ela quer criar atmosfera.

As faixas são curtas, mas não necessariamente superficiais. Funcionam como pequenos portais. Uma leva para o funk, outra para o ijexá, outra para o samba, outra para a MPB, outra para uma espiritualidade mais presente e outra para uma sensualidade livre de culpa.

Quando tudo se junta, o álbum vira quase um mapa afetivo da música brasileira contemporânea.

E eu acho que esse é o disco mais corajoso da carreira dela justamente porque não tenta provar que Anitta pode fazer tudo. Isso ela já provou há muito tempo.

Aqui, ela escolhe fazer algo mais pessoal, mais brasileiro e mais comprometido com uma visão artística.

Um disco para sentir os detalhes

EQUILIBRIVM II não é um álbum para ouvir apenas procurando o próximo grande hit. É um disco para perceber os detalhes.

Um tambor que chama.
Uma sanfona que acolhe.
Uma voz que declama.
Um grave que puxa o corpoo.

 

O místico, o profano e o sagrado em um mesmo ambiente em EQUILIBRIVM II, álbum novo da Anitta

Uma referência que talvez não seja compreendida logo na primeira audição, mas que pode ser sentida.

No fim, a grande força desse trabalho está exatamente aí. Anitta não abandona a artista popular que sempre foi. Ela aprofunda essa popularidade.

Ela mostra que música popular também pode ser pesquisa, memória, fé, mistura, liberdade e posicionamento.

Ancestralidade e Fé em EQUILIBRIVM II, álbum novo da Anitta

Talvez o verdadeiro equilíbrio do título esteja nisso: ser global sem deixar de ser local, ser pop sem deixar de ser profunda e ser Anitta sem precisar caber na expectativa de ninguém.

EQUILIBRIVM II não pede licença para existir. Ele chega, toca o tambor, abre caminho e lembra que o Brasil continua seendo uma  das maiores potências musicais do mundo.

 

 

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