Morre Lito Sousa, o piloto que ensinou o Brasil a perder o medo de voar

Aos 59 anos, o criador do canal Aviões e Músicas não resistiu à doença de Creutzfeldt-Jakob. Quem deu a notícia foi a esposa, Mila Seidl, em um vídeo narrado por ela mesma.

Foi pela voz de Mila que o Brasil soube. Na noite de quinta-feira (1º), a família publicou nas redes sociais de Lito Sousa um vídeo de despedida. Não havia nota oficial seca nem comunicado de assessoria como primeira informação. Havia uma mulher falando com o marido.

“Você veio para me salvar, salvar do medo de voar”, diz ela, em um dos trechos mais compartilhados do material.

Lito Sousa, nome artístico de Joselito Geraldo de Sousa, morreu aos 59 anos. A assessoria dele confirmou a morte à revista Quem. A causa foi a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), condição cerebral rara, de evolução rápida e sem cura. Ele também enfrentava um câncer de próstata.

Uma despedida escrita como quem conta uma história

O vídeo reúne imagens da carreira e da vida íntima do casal. Mila abre falando de um Lito que o público conhecia pouco.

“Por mais de 15 anos vocês assistiram ao Lito dizendo: ‘Saudações aeronáuticas! Tudo bem com vocês?’ […] Eu conheci o Lito pai, o meu marido, irmão de cinco, amigo leal, homem trabalhador e o ser humano mais íntegro que já conheci.”

Em outro momento, ela recorre a uma imagem que só quem viveu o mundo da aviação usaria:

Lito Souza – Imagem: Canal do Lito

“A vida é um bilhete de ida e volta e a rota foi planejada pelo grande comandante. E o grande comandante resolveu levá-lo para perto dele.”

E ainda brinca com a origem da palavra “passageiro”, que vem do latim passus, aquele que passa. “Somos passageiros na vida e também nos aviões”, diz.

O trecho final virou a frase da despedida:

“Não chores pela minha partida. Olho para o céu como procuras um avião. Ao olhar, eu vou estar lá.”

No Instagram, ela fechou com uma linha curta: “Um grande abraço e até o próximo voo. Foi uma honra ter viajado com você. Te amo. Sempre.”

Como o casal se conheceu

Segundo o relato de Mila, os dois se aproximaram em 2014, quando ela procurou Lito para ajudá-la a superar o medo de voar. Casaram-se em 2016 e tiveram um filho, hoje com 7 anos, que ela chamou de “o maior feito” da união.

Ela lembrou também do começo difícil. “Começamos com nada. Comemos pizza no chão da sala. Construímos tijolo por tijolo o Aviões e Músicas, o Lito Group.”

Lito Souza e Mila – Imagem: Canal do Lito

Pelo Instagram, a ex-passageira assustada virou parceira de trabalho e, depois, a pessoa que cuidou dele até o fim. Mila assumiu os cuidados de Lito desde o diagnóstico.

Quem era Lito Sousa

Joselito Geraldo de Sousa, nascido no ano de 1967, em Natal (RN), e criado em Santos (SP). Lito teve Carreira: 36 anos de experiência na aviação, com passagens por Varig, Transbrasil e United Airlines e foi criador do canal Aviões e Músicas, no ar há mais de 15 anos, com alcance de mais de 4,7 milhões de seguidores no Instagram e 3,6 milhões de inscritos no YouTube.

 

Lito ficou conhecido por explicar o que acontece dentro e fora de um avião com linguagem de quem trabalhou a vida inteira com isso. Turbulência, ruídos, procedimentos e pousos entraram na conversa de gente que nunca tinha pensado neles. O resultado foi uma comunidade de passageiros mais tranquilos, como a própria Mila resumiu: ele “deixou gente mais segura para seguir viagem”.

A doença

Ao anunciar a doença, Mila explicou que a investigação demorou a ser concluída. O casal tinha ido ao Hospital Israelita Albert Einstein, feito um ciclo de tratamento e voltado para casa, mas a melhora foi pequena. Com a piora, voltaram à internação. “Desde lá a nossa vida está na turbulência mais severa que a gente já passou”, disse ela na ocasião.

Foram 41 dias entre a revelação pública e a morte.

O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob

A DCJ é uma doença priônica, causada por proteínas anormais que danificam o cérebro. Provoca perda de memória, alterações de comportamento, dificuldade para andar, tremores e espasmos musculares. A incidência estimada é de um a dois casos por milhão de pessoas por ano. Não existe tratamento eficaz estabelecido, e a evolução costuma ser rápida. Por isso a família buscou acesso a uma terapia experimental, o que exigiu autorização especial da Anvisa.

O pedido de Mila: “não tirem foto”

Na manhã desta sexta-feira (2), Mila Seidl, de 41 anos, falou pela primeira vez depois da morte. Agradeceu as mensagens e as orações, e fez um pedido direto ao público.

“Não tirem foto, tá? Porque tudo o que cai na internet não sai nunca mais. Eu tenho um filho de sete anos e quero preservar a imagem dele, aquela imagem que a gente vê bonita.”

Ela contou que a família tomou cuidado para que não vazassem fotos de Lito doente, já no fim. Sobre o filho de 7 anos, disse que o menino não quis ir ao velório, decisão que considerou justa. “Eu queria que ele preservasse uma outra imagem.”

E reconheceu o limite do pedido: “A gente sempre sabe que tem gente que tira, né? Não façam isso, por favor.”

Velório

A cerimônia foi aberta ao público porque, nas palavras de Mila, “o Lito é muito amado”. O local foi no PAMA, espaço militar ao lado do Campo de Marte, em Santana, zona norte de São Paulo (Av. Braz Leme, 2594). Foi aberto: das 9h às 12h desta sexta-feira (2). Depois: cerimônia religiosa fechada, para família e amigos e a regra: sem fotos nem filmagens.

A escolha do local, segundo Mila, atendeu a algumas vontades do próprio Lito e a outras que a família achou bonito incluir. O PAMA fica vizinho a um aeroporto, o Campo de Marte, que combina com a trajetória dele.

Lito deixa a esposa, Mila, e um filho de 7 anos. Deixa também mais de 15 anos de vídeos que ajudaram muita gente a entrar em um avião sem tanto medo.

Mila encerrou o vídeo de despedida dizendo que ele ensinou todo mundo a olhar para cima. A partir de agora, quem olhar vai pensar nele.

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