Os portões do Nubank Parque se abriram na tarde desta sexta-feira, 25 de setembro, e o que se seguiu não foi apenas mais um show. Foi o retorno de um artista que, por mais de um ano e meio, escolheu o silêncio — e que agora, diante de uma multidão de cerca de 60 mil pessoas, decidiu contar, em música, tudo o que não pôde dizer enquanto esteve ausente. O número não é apenas expressivo: tornou-se o maior público já recebido pela arena da zona oeste de São Paulo em toda a sua história.

Jão chegou ao palco 360º erguido no centro do gramado com meia hora de atraso em relação ao horário combinado com os fãs. Quando a gritaria eufórica já tomava conta do estádio, na expectativa de vê-lo surgir, foi outra figura que ocupou o centro do círculo: a atriz Isabel Teixeira, que interpretou a Morte em cinco monólogos teatrais espalhados ao longo da noite, abrindo o espetáculo com a declamação de “Estrela da Manhã”, de Manuel Bandeira. “Onde está a estrela da manhã? Eu te espero, te esperarei”, ecoou pelo estádio, enquanto parte do público — pego de surpresa, sem saber exatamente o que estava assistindo — trocava olhares de estranhamento antes de se entregar à proposta.

Sete minutos depois, veio a música. E veio ele. De terno preto, Jão surgiu cantando “Aurora”, a faixa mais bem-sucedida de “Memórias Póstumas”, enquanto dançarinos chutavam água em sua direção sobre o espelho d’água incorporado à própria coreografia do palco — uma estrutura de duas passarelas com um imenso círculo central, que deixou toda a apresentação com um tom quase cinematográfico. Ele terminou a primeira canção encharcado, e respondeu com humor a quem o chamava da plateia: disse que estava “mais gostoso que nunca”.
Um espetáculo em cinco atos
A apresentação, dividida em cinco atos e composta por 32 músicas — entre elas seis estreias ao vivo, como “Memórias póstumas”, “Tudo me lembra”, “Eu sempre volto”, “Literatura”, “Curioso” e “O amor” —, durou cerca de duas horas e meia. O formato circular do palco permitiu algo raro em espetáculos dessa escala: os fãs puderam rodear toda a estrutura, em vez de se enfileirar diante de um palanque fixo, tornando a experiência simultaneamente íntima e coletiva.Um dos momentos mais comentados da noite foi a participação da deputada federal Erika Hilton, que subiu ao palco para cantar “Meninos e meninas” ao lado de Jão — um instante de afeto e representatividade que emocionou parte significativa do público. O show ainda contou com chuva artificial e se encerrou com queima de fogos ao som de “Catedral”, faixa que dá título a um dos momentos mais líricos do novo álbum.Antes de cantar, e entre os monólogos teatrais de Isabel Teixeira sobre criação, vida, morte e as contradições do ser humano, Jão aproveitou a estreia da turnê para anunciar uma novidade fora dos palcos: exibiu, com exclusividade, o teaser de um documentário sobre sua trajetória que chegará à Netflix.

Um disco que nasceu da ausência
“Memórias Póstumas” é o quinto disco de estúdio do cantor paulista, sucessor de “SUPER” (2023) e o primeiro a romper com o ciclo de trabalhos inspirados nos quatro elementos da natureza. Catorze faixas que, segundo as próprias palavras de Jão, são “músicas sobre a vida, nem sempre como ela é”.Antes mesmo de o disco chegar às plataformas de streaming, o artista já havia dado uma pista do que estava por vir. Reuniu cerca de dez mil pessoas em uma audição pública no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, e se emocionou ao falar sobre o período em que esteve fora dos holofotes.”Tive um ano estranho e fazer esse disco foi como contar tudo para vocês, enquanto não estavam lá. Estou muito feliz por estar de volta”, disse, na ocasião — frase que ecoou, de novo, na garganta apertada de muita gente que estava no Nubank Parque nesta sexta.Há algo de profundamente humano nesse gesto: transformar a distância em disco, o silêncio em canção. Jão não voltou como quem faz média com o público. Voltou como quem precisava, antes de mais nada, ser ouvido — e, a julgar pela multidão que fez história ao lado dele, foi ouvido como nunca.

Faixas como “Aurora”, “Meninos e meninas” e “Catedral” ganharam, nesta noite, o peso de quem foi cantada por alguém que precisou se afastar para conseguir voltar inteiro. Não é exagero dizer que o Nubank Parque assistiu, na prática, a um recomeço — não apenas de turnê, mas de artista, consagrado agora também pelo maior público já reunido naquele estádio.Jão não escondeu a fragilidade do momento em nenhuma entrevista que antecedeu o show. E é justamente essa disposição de se mostrar vulnerável, num cenário teatral, grandioso e visualmente arrebatador, que transformou “Memórias Póstumas” em algo maior do que um simples relançamento de carreira. Foi, antes de tudo, um reencontro — dele com o público, e do público com a versão mais verdadeira de um artista que, por um tempo, escolheu desaparecer para poder, finalmente, ser encontrado de novo.

