Gente, não tem como começar esse texto de outro jeito. A Virada Cultural 2026 foi simplesmente um dos eventos mais marcantes que eu já acompanhei aqui em São Paulo. E olha que já vi muita coisa acontecer nessa cidade. Mas essa edição, a 21ª, com o tema “O Festival dos Festivais”, ela guardou algo que vai ficar na memória de muita gente por muito tempo. E o nome dessa memória tem nome e sobrenome: Marina Sena.
Mas antes de chegar na Marina, deixa eu te contar o tamanho do que rolou nos dias 23 e 24 de maio por essa capital.
São Paulo virou a capital da cultura por 24 horas
Olha, quem não é de São Paulo, precisa entender o que é a Virada Cultural. Não é um show. Não é um festival comum. É a cidade inteira que para, respira arte e entrega 24 horas de programação gratuita de ponta a ponta. Mais de 1.300 atrações, 22 palcos espalhados por todas as zonas da cidade, expectativa de 4,8 milhões de pessoas nas ruas e um impacto estimado de mais de 500 milhões de reais na economia paulistana. Isso é São Paulo, gente. Isso é o tamanho dessa cidade.
O coração do evento, como sempre, bateu no Vale do Anhangabaú, lá no centro histórico. E não é à toa. Aquele espaço tem uma energia diferente. Eu lembro quando aquela área era um ponto de preocupação, de insegurança. Hoje, quando você vê aquele mar de gente unido pela música, pela arte, pelo que há de melhor na nossa cultura, bate uma sensação boa. Um orgulho genuíno de São Paulo.

A grade foi pesada: João Carlos Martins, Mocidade Alegre (a campeã do Carnaval 2026, por sinal), Péricles, Luísa Sonza, Manu Chao, Orchestre Polyritmo de Cotonou, Seu Jorge e Alexandre Pires. Sem contar os palcos espalhados pelas outras zonas, que também estavam a mil. São Paulo é assim: você pode ter mil eventos simultâneos e todos vão estar cheios se a atração tiver força.
Mas teve uma atração que fez o domingo ser diferente de tudo.
Marina Sena e o domingo que parou o Anhangabaú
Fãs dela chegaram às 6h da manhã. Seis horas da manhã, para um show às 14h. Isso já te diz tudo sobre o que estava por vir.
Quando a Marina subiu ao palco, por volta das 14h24, sob uma garoa fina que insistia em aparecer, o Vale do Anhangabaú já estava tomado. Um mar de gente que eu não sei nem comparar com outro evento que já vi ali. E ela entrou com aquele visual hipnótico, aquela presença de quem sabe exatamente o que está fazendo, e o público explodiu antes mesmo de ela soltar a primeira nota.
A chuva ainda tava ali. Mas aí aconteceu uma coisa que o Estadão até registrou com aquela ironia gostosa de quem sabe escrever: a chuva parou. Literalmente. E a própria Marina brincou com isso, porque faz parte do universo dela, da conexão com as coisas naturais, com a energia da bruxaria ancestral que ela traz no seu projeto artístico. “Começou a chover, mas já parou, né, gente?” ela disse para a plateia. “Até abriu o sol. É muito Coisas Naturais.” E o público foi ao delírio.
No repertório, ela passeou por tudo: “Por Supuesto”, “Me Toca”, “Sai Para Ver o Mar”, “Numa Ilha”, “Coisas Naturais”. Músicas que eu, sinceramente, já ouvi em lugares que nunca imaginei. Estava em Viena, na Áustria, e escutei brasileiros cantando Marina nas ruas. Nos bares. Nas praias do litoral europeu. Esse verão, a Marina estourou de um jeito que poucos artistas daqui conseguem. E no Anhangabaú, naquele domingo, isso ficou escancarado.
O momento que todo mundo vai lembrar
Quando o show da Marina terminou, ela não foi embora. Ficou. E quando Seu Jorge subiu ao palco logo depois, ele convidou Marina de volta para uma participação especial. Juntos, cantaram “Ponto de Luz”, em homenagem a Gal Costa. A Folha de São Paulo listou como um dos momentos mais comentados de toda a edição. E foi, de verdade. Dois artistas de mundos diferentes, conectados por aquela música, naquele espaço histórico, na frente de uma multidão que simplesmente não queria que a tarde acabasse.
Isso é Virada Cultural.
Marina Sena: a artista que chegou no seu tempo
Tem gente falando que ela é o nosso Ney Matogrosso feminino. E eu entendo de onde vem essa comparação. Não é só pela dança, pela sensualidade do palco, pela conexão com o sagrado feminino e com a energia da Kundalini que ela traz nos movimentos. É pela raridade. É pela capacidade de se transformar completamente quando sobe num palco, enquanto fora dele é aquela menina simples, acessível, que fala com todo mundo no backstage sem cerimônia nenhuma. E é exatamente isso que faz um grande artista.

A mistura que ela carrega é única: tem Gal Costa, tem Ney Matogrosso, tem aquela levada leve e dançante que parece simples mas é construída em cima de uma base cultural muito sólida. E o EP “Marinada Vol. 1”, que ela trouxe para a turnê, tem exatamente esse DNA solar e festivo que o público abraçou de vez.
Antes da Virada, ela já tinha dado outro passo importante: a parceria com Anitta em “Mandinga”. Aquela música fez muita gente que não conhecia a Marina olhar para ela de um jeito diferente. E o disco da Anitta, aliás, você pode acompanhar esse artigo está demais https://frankmenezes.com/equilibrium-de-anitta-analise/, porque ela conseguiu algo raro: unificar públicos completamente diferentes num álbum só, com colaborações que vão de artistas da cena brasileira mais alternativa até a Shakira. Vale muito ler.
São Paulo é assim: tem espaço para todo mundo
Um detalhe que eu quero destacar, porque acho bonito: o figurino da Marina. Aquele nível artístico, aquelas peças que parecem saídas de um ritual, de um manifesto visual. Quando um artista veste algo assim, ele não está só se expressando. Ele está dando espaço para o trabalho de estilistas, artesãos, pessoas que criam adereços à mão. São Paulo tem isso. Essa cidade tem talento em cada esquina, e quando uma Marina Sena aparece num palco desse tamanho com um figurino assim, ela carrega junto toda uma cadeia criativa que muitas vezes não aparece nos créditos mas merece estar.

E a 21ª edição da Virada Cultural também apostou nisso. Mais de 100 parceiros envolvidos: Sesc SP, MASP, Museu da Língua Portuguesa, Pinacoteca, Instituto Moreira Salles, Cine Copan, Cinesesc. Cinema, teatro, música, arte visual. Tudo junto, tudo gratuito, por 24 horas. São Paulo sendo São Paulo.
Para quem perdeu: anota aí
Se você é de outro estado ou de fora do Brasil e ficou curioso com tudo isso que eu contei, guarda essa informação: a Virada Cultural acontece todo ano, em maio, aqui em São Paulo. É gratuita. São 24 horas de programação espalhada pela cidade inteira. Você não precisa de ingresso, não precisa de muito planejamento. Precisa de disposição, de conforto, de hidratação e de vontade de se jogar nessa energia que só São Paulo consegue criar.
E vai ficando de olho também na Virada Zen, que vem por aí. Para quem curte yoga, bem-estar e qualidade de vida, é uma experiência completamente diferente, mas igualmente especial.
Por ora, fica aqui minha homenagem à Virada Cultural 2026. A Marina Sena foi o grande destaque, sim. Mas cada artista que subiu em qualquer um dos 22 palcos dessa cidade naquele fim de semana fez parte de algo muito maior. Fez parte do que São Paulo tem de melhor.

