Por que esse texto ainda precisa ser lido com cuidado
Existe um tipo de conversa que muita gente evita — não por falta de interesse, mas por receio de transformar fé, história e identidade em briga. Ainda assim, há momentos em que o debate é necessário, principalmente quando o ponto de partida não é “achismo”, e sim um documento publicado, datado e assinável.

É o caso do texto “Perfectibilidade da raça negra”, publicado em abril de 1862 na Revista Espírita (Revue Spirite), assinado por Allan Kardec. O texto traz formulações que dialogam com o racismo científico do século XIX, corrente que tentou apresentar hierarquias humanas como se fossem verdades naturais, apoiadas em suposta ciência.
A questão, aqui, não é usar o tema como arma para atacar pessoas ou tradições religiosas. É fazer o que qualquer sociedade madura faz com seus arquivos: ler com responsabilidade, contextualizar, reconhecer problemas e entender impactos.
O que a pesquisa de Fernando Ben e Thiago Cedrez analisa
Um estudo recente de Fernando Ben Oliveira da Silva (doutorando em Psicologia Social – UERJ) e Thiago Cedrez da Silva (doutor em História – UFPE), com coautoria de Elvis Silveira Simões e Lana Claudia de Souza Fonseca, propõe uma leitura histórico-discursiva do texto de 1862. Os autores articulam ferramentas da Análise Crítica do Discurso (Fairclough, van Dijk e Orlandi) com o conceito de racismo estrutural (Silvio Almeida), buscando entender como a hierarquização racial é construída na linguagem e quais ideias a sustentam.

Em vez de reduzir o problema a uma falha individual “isolada”, o artigo argumenta que o texto se insere num ambiente intelectual em que teorias hoje reconhecidas como pseudocientíficas — como frenologia, antropologia física, poligenismo e versões de darwinismo social — circulavam com prestígio e eram usadas para “explicar” desigualdades como se fossem parte da natureza.
O que aparece na linguagem: quando a hierarquia vira “evidência”
Segundo o resumo do estudo, a análise identifica campos de sentido recorrentes que estruturam a representação da população negra no texto, agrupados em três eixos: inferioridade, infantilização e animalização. Outro ponto destacado é o uso de um tom de certeza — uma forma de escrever que transforma uma visão hierárquica em aparência de fato incontestável.
A pesquisa também chama atenção para algo crucial: o racismo, muitas vezes, não opera apenas pelo que é afirmado, mas também pelo que é deixado de lado. Os autores apontam silêncios estratégicos, como a pouca centralidade dada às violências coloniais e à complexidade de sociedades africanas — omissões que ajudam a deslocar a discussão para “características” do grupo, e não para a história social e política que produziu desigualdades.
Por que isso importa hoje (e por que não é “ataque”)
Tratar criticamente um texto de 1862 não é “cancelar” uma religião, nem julgar pessoas de hoje. É reconhecer que textos fundacionais podem carregar ideias do seu tempo — inclusive ideias racistas — e que, quando esses conteúdos circulam sem nota crítica, eles podem continuar influenciando percepções, interpretações e práticas.
O debate proposto pela pesquisa é, no fundo, um debate sobre responsabilidade com a memória: como lidar com documentos que existem, que foram publicados, e que trazem marcas de um período em que o racismo buscava se legitimar como ciência.
Ler criticamente não é negar a história; é impedir que a história continue ferindo do mesmo jeito.
Fontes e leitura completa para quem quiser aprofundar
Fonte primária (texto analisado)
“Perfectibilidade da raça negra”, publicado na Revista Espírita (Revue Spirite), abril de 1862, assinado por Allan Kardec.
Artigo acadêmico (download/leitura integral)
Revista Multidisciplinar do Nordeste Mineiro — “Racismo estrutural nos escritos de Allan Kardec: análise histórico-discursiva do texto ‘Perfectibilidade da raça negra’ (1862)”
Leia/baixe o artigo completo (PDF): https://remunom.ojsbr.com/multidisciplinar/article/view/5359/5020
Página do artigo: https://remunom.ojsbr.com/multidisciplinar/article/view/5359
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